terça-feira, 18 de outubro de 2016

Servos inúteis...


O Papa Emérito Bento XVI logo após ser escolhido para o pontificado disse algo que ficou marcado em minha memória: Deus costuma contar com instrumentos insuficientes.  Diante da tarefa que recebia, ele reconheceu que suas capacidades estavam aquém do que lhe era pedido. E mesmo assim aceitou...

Ainda que em uma missão incomensuravelmente menor que aquela recebida por Bento XVI naquele dia, penso que suas palavras dizem muito sobre a situação que hoje vivemos.

A sensação de insuficiência tem sido algo comum na Oficina desde que surgiu. Há pouca gente para muitas frentes de trabalho. Muitas escolas a serem visitadas. Trabalhos sociais que desejamos fazer e ainda nem começamos. Uma reformulação do blog que está planejada há alguns anos. Pessoas que gostaríamos que fossem acompanhadas individualmente. E a lista está longe de estar completa. Sei que cada membro da oficina poderia acrescentar algo a ela.

Para além da lista de tarefas pontuais e olhando para as dimensões da nossa identidade, creio que todos sentimos que todas as áreas da Oficina deveriam estar melhores. Que precisamos de mais oração, de mais formação, de mais vida comunitária, de mais ações de cunho caritativo, de mais santidade. De mais presença de Deus, de mais riso, de mais conversa. Enfim, hoje a Oficina em concreto é insuficiente diante daquilo que dia a dia acreditamos ser o nosso chamado. 

Sem falsa humildade e com um olhar objetivo, a Oficina é uma realidade frágil e cheia de limites e defeitos. Todos os que dela participamos poderíamos estar em outras realidades eclesiais muito melhores. E, no entanto, estamos em um espaço que é pior. E por que fazemos isso? Penso que a resposta está na fala do Papa Bento: Deus conta com instrumentos insuficientes. Na insuficiência do meio que é a Oficina de valores, Deus quer fazer de nós santos. E se permanecemos na Oficina é porque a experiência que aqui fazemos é única. Num espaço que é dos piores, encontramos algo que é grande é bonito.

Sim, a Oficina é insuficiente. E ela é assim porque nós, seus membros, somos insuficientes.  Frequentemente percebemos que não temos os talentos necessários à realização das obras que nos são confiadas. Faltam a nós virtudes básicas que em outros ambientes frequentemente abundam. Temos nossos medos e egoísmos. Nossas sombras. Nossos pecados. E cada um de nossos tropeços atinge a Igreja como um todo e, de maneira mais próxima, atinge a Oficina de Valores e cada um dos membros dessa comunidade.  Apesar disso tudo, Deus quer contar conosco para sermos seus instrumentos. E Ele sabe bem melhor que nós daquilo que nos falta.

Essa percepção de nossa insuficiência não deve ser nunca motivo para desanimarmos ou desistirmos. Saber-se insuficiente não motivou Joseph Ratzinger a dizer não ao chamado que lhe era feito. Ao contrário: fez com que dissesse um sim muito mais maduro. Um sim fundado na fé em Deus e não na crença em si mesmo.

Saber que Deus conta com instrumentos insuficientes deve trazer grande tranquilidade. A tranquilidade de saber que a obra é dele e não nossa. Que a nossa insuficiência não é empecilho para seu poder. Que nosso nada serve para que sua glória brilhe. Que nossa fraqueza é onde Ele demonstra sua força. Nossas deficiências, ainda que agudas, não são obstáculos invencíveis para a realização dos planos de Deus. E isso é assim simplesmente porque nós não somos o centro da Oficina. Ele é.

Por outro lado, a consciência da nossa insuficiência chama a atenção para o fato de que nunca devemos dar a Deus menos que o nosso máximo. Isso tem que estar em nossos corações e mentes sempre que o egoísmo, a preguiça, a má vontade ou qualquer outro tipo de tentação balançar nossas convicções. “Somos servos inúteis e apenas cumprimos nosso dever” (Lc 7, 10). Assim o Evangelho nos define. Mas é através de nossa inutilidade que a obra é realizada. Nossa parte pode ser pequena, ínfima, mas Deus não a substitui. Ele a multiplica, faz com que nosso nada sirva para alguma coisa, mas não dispensa a colaboração que sempre nos chama a dar.

Nesse momento rico e difícil que vivemos, onde nossa identidade tem sido pouco a pouco formada, ter essas realidades diante de nossos olhos é algo extremamente necessário. Necessário para termos a paz que vem da confiança de que tudo está em mãos melhores que as nossas. Necessário também para não deixarmos de lado o esforço que a nós compete, afinal a insuficiência dos instrumentos não é e nunca será um empecilho à graça, já a omissão e a recusa por parte dos instrumentos frequentemente fazem aquilo que nem nossa incapacidade pode fazer: retém ou atrasam a ação de Deus.

Alessandro Garcia
Oficina de Valores

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