"Eis que faço novas todas as coisas". Essa palavra, dita pelo próprio senhor no livro do Apocalipse (21,5), é aparentemente simples de ser compreendida. Deus age em nós para renovar a nossa alma: antes decaída pelo pecado, agora restaurada pelo sacrifício de Cristo na cruz e por sua ressurreição naquele domingo fatídico. Ao atravessar a morte e passar para a vida gloriosa, Cristo transforma para sempre o destino do homem. Essa transformação radical, porém, deve ainda ser implementada concretamente em cada uma de nossas almas. Cristo abriu as portas da casa de Deus. Resta passar por ela, e isto é algo que apenas cada um pode fazer por si mesmo.
Essa “travessia” é pregada e testemunhada pela multidão das santas e santos que viveram antes de nós. Ao olharmos para as vidas destes heróis, que foram forjados nos desafios e dilemas que não diferem dos problemas nossos e do nosso tempo, temos a clareza de que é preciso deixar que morra o “homem velho” para que surja em nós um “homem novo”. Viver para Deus, ser cristão, não é, portanto, viver uma vida estranha. Não é ser algo totalmente diferente do que nós já somos. Não é ser outra pessoa. Pelo contrário: os efeitos da graça em nós são a restauração, a renovação, a possibilidade de um recomeço puro. Recomeçar é parte tão fundamental do cristianismo que é impossível ser um autêntico cristão sem contar com as inúmeras possibilidades de recomeços que Deus nos proporciona: o recomeço conversão, o recomeço da misericórdia de Deus, o recomeço nos novos propósitos...
Num mundo que busca cada vez mais enquadrar os homens em estereótipos e em determinismos, é preciso mais do que nunca experimentar a força dessa palavra. Eis que faço novas todas as coisas. Não estamos limitados e condenados pelos nossos defeitos e pecados a sermos como o mundo diz que temos que ser. Temos que ser mulheres e homens novos, a cada dia. E isto inclui renovarmos todos os aspectos da nossa vida, inclusive nosso sim a Cristo e à sua Igreja. Cristo tem para nós um vinho totalmente novo. Tem para nós um futuro brilhante! É preciso nos tornar odres novos para recebermos esse vinho. E isso seremos quando dermos a Cristo um sim igualmente novo.
Isto é um grande e fundamental ensinamento que podemos retirar da palavra de Deus naquele versículo do Apocalipse. Acredito, porém, que ainda não compreendemos o poder total desta palavra quando a aplicamos apenas à nossa própria vida. Eis que faço novas todas as coisas. O poder de Deus faz com que todas as coisas sejam novas! Como compreenderemos esta palavra?
“Faça-se tudo novo”. Se esta palavra fosse decretada por Deus e ouvida pelos homens, veríamos agir um sopro de espírito capaz de restaurar cada coisa deste mundo ao seu plano original. Veríamos baixar sobre este mundo uma brisa suave, que invade cada ponto da existência, cada povo, cada história, e por onde passa transforma cada coisa em algo belo, único, novo. Veríamos remendar-se os corações que estavam partidos pelo rancor, restaurar-se as famílias cadaverizadas pelos traumas e separações... Reconciliar-se as nações e os irmãos em guerra. Veríamos despertar homens e mulheres em um mundo unido, fraterno. Sem discórdias, sem misérias, sem pecado.
Quão poderosa é esta palavra! Quando ela se cumprirá? Irmãos e irmãs, esta palavra se cumpre agora. Deus já realizou em nós a obra de renovação do mundo. Por isso, temos que aprender a olhar o mundo com novos olhos. Dar um novo sentido às coisas. Deus detesta o que é velho. Mas nada é velho aos olhos de quem ressuscitou. Portanto, Cristo vê tudo novo. E se verdadeiramente ressuscitamos com Cristo, então retiremos as escamas e as traves dos nossos olhos, e veremos um mundo pleno de um novo sentido à nossa frente!
A renovação que Cristo oferece ao mundo não é algo abstrato, longínquo. Certamente, ela se manifestará de modo pleno apenas no último dia, mas ela já está totalmente aí. A Igreja experimenta essa brisa suave de restauração em todos os tempos, através dos santos, dos milagres, dos carismas. O que de fato não podemos fazer é deixar essa renovação escapar aos nossos olhos. Não podemos nos acostumar com a graça: ela é sempre extraordinária! A experiência cristã, tanto espiritual, quanto pastoral, não pode ser uma rotina que perdeu o seu vigor, uma rotina que é apenas repetida mecanicamente por força do hábito. De modo muito concreto, como poderemos assumir para nós essa renovação?
Nós, que somos membros da Oficina de Valores, temos que começar a enxergar esta enorme renovação primeiro em nossa própria comunidade! Temos que descobrir, na Oficina, um novo vigor. Olhar para a nossa vida enquanto membros com um novo olhar. Fazer novos amigos e novos propósitos. Pregar uma nova mensagem. Sonhar novos sonhos... Hoje e a cada dia, ainda por muito tempo, nasce uma nova Oficina de Valores.
"Eis que farei uma obra nova... Ela já está aí! Não a vedes?" (Is 43, 19). Estas são palavras de esperança. Mas serão mais que palavras, serão vida se, a partir desta novidade, olharmos para nós mesmos e nos perguntarmos: o que Cristo renova, hoje, em minha rotina, em meu jeito de agir, em meus relacionamentos? E, depois de refletir, vamos nos levantar e nos por a caminho. Será, certamente, um caminho novo. Que o mundo, ainda hoje, olhe para a Oficina de Valores e diga: “de fato, Deus faz novas todas as coisas”.
Thales Bittencourt
Oficina de Valores

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