Dormir certamente é algo necessário para a nossa vida. É através do sono que recuperamos a energia para nossos trabalhos, estudos, e para todas as nossas outras atividades. Dormir não é só algo importante: é também algo muito bom. Há um prazer especial em dormir uma boa noite de sono, especialmente depois de um dia cheio de trabalhos e tarefas, ou num dia frio e chuvoso.
Nas cidades antigas, porém, algumas pessoas tinham que ficar acordadas a noite toda. As cidades, em geral, eram cercadas por uma muralha na qual se colocavam algumas torres em que alguns soldados ficavam. Qual era a razão deste costume? Eles faziam assim para que o inimigo não invadisse a cidade durante a noite, e encontrasse todos dormindo. Algumas pessoas tinham, portanto, que ficar vigiando, atentas para a presença do inimigo, pois ninguém sabia exatamente quando o inimigo chegaria.
Essa tarefa hoje em dia é desnecessária na maior parte dos lugares. Felizmente, vivemos num mundo que goza de uma relativa paz, de modo que ninguém precisa ficar acordado a noite toda para isso. Felizmente, podemos fazer de noite aquilo para o que a noite foi feita para fazer: dormir.
O problema é que às vezes nós dormimos demais. Às vezes estamos especialmente cansados. Às vezes não temos nada pra fazer. Às vezes está muito frio, e a cama está confortável demais. Às vezes dormimos mais do que podemos e a acabamos perdendo a hora. Seja qual for o motivo, dormir demais geralmente não é bom.
Paralelo ao sono físico, há também o sono espiritual. E o que é dormir espiritualmente? É acomodar-se de tal modo com as realidades cristãs que elas já não incomodam mais, não nos surpreendem. É relaxar, tranquilizar, nos exercícios espirituais como a oração, a missão, o sacrifício. É contentar-se com o que está bom, e resignar-se ao que está ruim.
O evangelho nos mostra duas situações de perigo com relação ao sono espiritual. Quando subiram com o Senhor o monte Tabor, Pedro Tiago e João puderam contemplar a máxima glória na pessoa de Jesus, quando tiveram um vislumbre da glória de Cristo em sua transfiguração. Participar daquela experiência era muito bom. “É muito bom estarmos aqui, Senhor”. Assim adoraram eles. Mas aquela experiência não provocou imediatamente neles uma vontade de sair de si, e comunicar aquela glória a todos. A convicção missionária destes três grandes apóstolos veio depois. Naquele momento, eles quiseram montar ali uma tenda para o Senhor. Queriam, portanto, dormir por ali mesmo. Não fosse o próprio Pai a por fim a esse torpor em que estavam, era bem possível que os três tivessem vivido o resto de suas vidas ali, naquela contemplação sonolenta de uma glória que veio ao mundo para acordá-lo.
Em uma outra passagem, os apóstolos sobem novamente com o Mestre. Desta vez, acompanham o Senhor em sua última noite antes do último sacrifício. Sobem o Monte das Oliveiras. Lá o Senhor sofre a “suprema angústia”. Sobre si, pesam todos os pecados do mundo. Pedro, Tiago e João o acompanharam de perto e, ao verem o Mestre sofrer e suplicar ao Pai, eles ficaram “dominados pela tristeza”. E dormiram. Caíram num sono profundo. Pensaram que nada poderiam fazer para superar aquela situação. Que estava tudo perdido. Que o mal tinha, enfim, vencido. Quantas vezes nós sentimos exatamente isso! Diante dos problemas, das situações adversas, das grandes angústias por que passamos, nós muitas vezes só temos vontade de lamentar, de deixar as coisas como estão. Queremos dormir, como se o sono fosse uma escapatória, um refúgio. Os apóstolos ouviram duras palavras de Cristo aquela noite: “Então não fostes capazes de vigiar nem apenas uma hora comigo?”.
Durante o tempo do advento, somos chamados a vigiar com nosso coração esta “hora” com o Mestre. Será uma hora de acordar o espírito, e estar sempre em vigília. Os soldados de antigamente ficavam acordados à espera do inimigo. Nós hoje temos que ficar acordados com nosso coração à espera do Senhor. Não sabemos o dia nem a hora em que o Senhor virá em sua vinda gloriosa. Mas sabemos quando ele vem para reclamar a posse de nosso coração: hoje. O advento não é só um convite à espera, mas é também um convite ao exercício do coração que vislumbra o Senhor que vem.
Os soldados não ficavam acordados só para estar de pé quando viesse o inimigo. Mas eles também tinham que tocar os sinos e soar os tambores assim que o inimigo despontasse no horizonte. O mundo, ou seja, nós mesmos, estamos num torpor que oscila entra o êxtase da glória e o desespero da tristeza. Nós somos chamados a sermos estas “sentinelas da alvorada” e acordar o mundo quando o Senhor vier. E ele vem.
Portanto, temos que, hoje, ainda nesta hora, tocar os sinos do mundo para anunciar a chegada de Deus. O Natal do Senhor é a comemoração solene da chegada de Deus a este mundo. E já está tão próximo! Vamos nos preparar acordados, para que o mundo receba o Senhor, de pé.
Meditações para o Advento 2015
Escrita por Thales Bittencourt
Escrita por Thales Bittencourt
08/12/2015
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