Queridos amigos,
Na nossa relação com o tempo, vivemos, a cada ano, dois anos
em um. Há aquele que marca o tempo civil, que dita nosso ritmo de trabalho,
nossas férias, o planejamento das atividades. E há o tempo litúrgico, que ajuda
a marcar o compasso da nossa relação com Deus, que possibilita que façamos
memória dos fatos mais importantes da História da salvação. O ano civil lembra
que o tempo passa, o ano litúrgico recorda que nossa vida desemboca na
eternidade.
Poucas vezes prestamos atenção, mas o ano litúrgico e o ano
civil não se sobrepõem por muito pouco.
Encerramos o primeiro com a festividade de Cristo Rei cerca de um mês
antes dos fogos de Ano Novo. Essa quase sobreposição carrega em si uma lição
que não é difícil esquecer: carregamos uma dupla cidadania. Vivemos e amamos
esse mundo, pisamos esse chão, trabalhamos derramando o suor de nosso rosto;
mas ao mesmo tempo somos, como dizia São Paulo, concidadãos dos santos, membros
da família de Deus.
Em virtude dessa nossa condição, não devemos separar aquilo
que Deus, ao encarnar-se, uniu. O humano foi divinizado e o mundano tornou-se
sagrado. A proximidade do ano litúrgico
e do ano civil ajuda a lembrar disso.
Mas o fato de que a sobreposição não é total, lembra-nos também de que a
harmonia não é completa, que tanto em nós quanto no mundo ainda não foi
realizada plenamente a proximidade sonhada por Deus.
É nesse contexto que quero propor que pensemos numa das
frases mais repetidas nesse tempo de advento: “Preparai os caminhos do Senhor”.
Para tanto, vamos ao trecho do profeta Isaías tal como citado no Evangelho de São
Lucas:
“Uma
voz clama no deserto: Preparai os caminhos do Senhor, tornai retas as suas
veredas; todo vale será aterrado, toda montanha ou colina será abaixada; as
vias sinuosas se transformarão em retas e os caminhos acidentados serão
nivelados. E toda a carne verá a salvação de Deus.”
Acredito que nos nossos tempos não consigamos perceber de
maneira imediata a força dessa passagem.
O mundo em que vivemos é muito diferente daquele que a inspirou. Hoje há
estradas para quase todos os lugares. Além
disso, boa parte dos desafios que as viagens mais difíceis poderiam trazer
podem ser vencidos por aviões. Quando Isaías escreveu “Preparai os caminhos do
Senhor”, praticamente não havia estradas e viajar era algo perigoso. O risco de
não chegar ao destino era mundo grande e não era incomum viajar em grandes
grupos para proteger-se de salteadores no caminho. Quando os reis viajavam, todo um batalhão ia
à frente preparando, abrindo caminho, tirando os obstáculos que pudessem
dificultar ou retardar a chegada do senhor. Buracos eram tapados, pontes
construídas, árvores derrubadas.
No advento, somos chamados a preparar o caminho para que
nosso Senhor venha. Isso tem, em primeiro lugar, uma dimensão interior. Ele
sempre vem. Se julgamos que ele não chega é porque os caminhos de nosso coração
vedaram a passagem. As montanhas do orgulho ou os vales do egoísmo fazem com
que Ele não consiga passar.
Derrubem as montanhas! Não esqueçam daquilo que diz São
Pedro em sua primeira carta: Deus resiste aos soberbos. E o orgulho costuma tomar diversas formas, de
modo que às vezes consideramos como sendo justiça àquilo que é apenas uma
sensação de falsa grandeza. E é justamente essa suposta grandeza que age como
uma montanha que bloqueia a passagem do Sol que tem força para iluminar nossa
escuridão.
Aterrem os vales! Não esqueçam das palavras do próprio
Jesus: “Há mais alegria em dar que receber”. Viver para si mesmo parece a mais
confortável das coisas. Acaba, no entanto, por ser a mais frustrante. Quem vive
para si não acolhe o outro. E quem não acolhe o outro nunca abre o caminho para
o Senhor.
Tornem retas as veredas! Grande parte de nós vive um
compromisso com Deus. Mas retardamos decisões de mudança. Fazemos com que, em
nossas vidas, o Senhor tenha que fazer muitas curvas e trilhar uma estrada muito
mais longa para alcançar nossos corações. Não retardemos mais. Que possamos
tornar retos os caminhos que são sinuosos.
O Senhor que quer vir a nós, quer vir a todos. Quer vir ao mundo! E conta conosco para que seus
caminhos sejam preparados. Nesse contexto, julgo que São João Batista, aquele
que preparou o caminho de Jesus em sua primeira vinda, é um grande modelo para
a Oficina de Valores. Grande parte de nosso trabalho consiste em facilitar o
encontro das pessoas com o Senhor. Quando vamos às escolas não falamos
diretamente de Cristo, mas buscamos despertar o desejo pelo infinito que a Ele
conduz. Quando escrevemos ou divulgamos um texto do blog queremos chamar a
atenção para o fato de que toda realidade humana, quando bem vivida, é a Ele
que nos dirige. E que quando uma dessas realidades não está conduzindo a Cristo
é porque não está sendo vivida em sua plenitude.
Preparai os caminhos do Senhor...
Talvez sintamos que estamos diante de uma tarefa maior que
nossas forças. As montanhas são muito altas para que possamos derrubá-las e os
vales muito fundos para que consigamos aterrá-los. Acontece que temos uma vantagem hoje: o
Senhor virá, mas Ele também já veio. Sua presença já está conosco. E é Ele que
nos dá força para endireitar as veredas que permitirão que esteja ainda mais em
nosso meio. É nesse paradoxo da alegria por sua presença e da dor por sua
ausência que celebramos o advento. É essa a experiência que faz com que nos
alegremos com sua companhia, ao mesmo tempo em que dizemos: “Vem, Senhor
Jesus.”
Meditações para o Advento 2015
Alessandro Garcia
Fundador da Oficina de Valores
14/12/2015

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